Entrevista com o tatuador Raul Sanches

 

O Portal Wonder Girls conversou com o tatuador Raul Sanches Faustino,

ele trabalha no estúdio Forever Ink Tattoo  em Santa Gertrudes interior Paulista.              

Neste bate papo muito interessante o profissional contou experiências, idéias e planos realizados nestes dois anos e 5 meses que ele atua como tatuador, e sua história antes das agulhas serem a sua profissão.

Oque e trouxe ao mundo da Tattoo como profissional? Quais foram as suas influências?                       

Minha história na arte iniciou quando ainda era criança, sempre desenhei, pintava muros, a maioria dos estilos de artes diferentes sempre me atraia e eu sou curioso, sempre me envolvia mesmo sem ter total conhecimento do que eu estava fazendo. Comecei a me tatuar aos 15 anos de idade, meu pai sempre foi minha principal referência de estilo de vida, ele já tinha uma tatuagem de uma índia clássica, disse pra ele que eu gostaria de fazer uma tatuagem e ele me levou no estúdio de um amigo sem problema nenhum, desde a primeira tatuagem que foi uma homenagem para meu pai e minha mãe, eu me identifiquei muito com esse estilo de vida, 2 meses depois eu já estava fazendo outra Tatuagem, sempre me espelhando no estilo mais clássico, o tradicional old school,  em 2015 em uma brincadeira entre 3 amigos tive a oportunidade de tatuar um dos meus amigos, sem nunca ter pego em uma máquina, sem noção nenhuma, apenas com o conhecimento que eu tive em ideias trocadas com os meus tatuadores, nesse dia eu consegui tatuar o meu amigo, o trabalho não ficou ruim, ficou aceitável. No outro dia pesquisei na internet sobre kits para tatuar, e comprei um kit básico, quando chegou eu fui testar em mim mesmo, fiz várias tatuagens na minha perna esquerda, meus amigos que viram não acreditaram que eu havia feito aqueles trabalhos, eu sendo minha própria cobaia me trouxe vários clientes. Minhas maiores inspirações são artistas da linha do old school, um deles é um amigo e meu tatuador, que me ajudou a iniciar, chamado Lincoln Emiliano, e alguns artistas de outros países como o Myke Chambers, Samuele Briganti. Comecei a tatuar em casa no período noturno, trabalhava em uma loja automotiva em horário comercial e nos horários vagos eu atendia meus amigos, na maioria das vezes. O tempo foi passando e minha arte foi se ampliando, pessoas que eu nunca havia visto começaram a me procurar pra tatuar, chegou um momento que minha casa estava muito movimentada, meus amigos que já tinham experiência com o ramo me instruíram a encerrar as atividades na minha casa, e foi a melhor opção, a principal questão é a da higiene e a assepsia, e ainda tem a questão da vigilância sanitária, se eles descobrissem eu poderia ter sérios problemas. Fiquei um tempo sem tatuar e não tinha certeza se voltaria a trabalhar nesse ramo da tatuagem, pois eu trabalhava no ramo automotivo à 12 anos, seria arriscado largar tudo no momento. Eis que surge uma brilhante ideia do meu Pai, ele tem uma loja de revenda de motos e estava com uma sala sobrando, resolvemos montar um pequeno estúdio, do jeito certo, tive que abrir uma empresa no meu nome, fiquei vinculado ao sistema da vigilância sanitária da minha cidade, estava tudo certo, era só tatuar! Trabalhei nesse primeiro estúdio a aproximadamente 1 ano e acabou ficando pequeno, mudamos a loja de motos e meu estúdio junto, agora em um tamanho maior e mais amplo.                        

Então você teve uma transição de profissão mais tranquila. Você ajudava no ramo das motos durante o dia ainda ou ficava focado totalmente no estúdio?                       

A transição foi um pouco delicada, antes eu trabalhei por 12 anos em uma loja de acessórios automotivos, som, alarmes, insulfilm, etc... que é do meu pai e de um sócio, mas meu pai arrendou a empresa à 3 anos e montou a loja de motos. Quando decidi a me focar na Tatuagem e ingressar de vez nesse mundo, conversei com o meu pai em primeiro lugar e ele que sempre me apoiou me incentivou ao extremo pra trabalhar somente com a Tatuagem, meu pai nunca me limitou, nunca disse a clássica frase ' mas se você ter tatuagens aparecendo você não vai conseguir emprego' meu pai por ser autodidata sempre prezou a integridade e o caráter, me ensinou a ser honesto, correto e positivo! Não preciso de um emprego se eu posso ser o próprio emprego! Decidido fui conversar com o meu patrão, ele não ficou muito satisfeito pela minha decisão, mas aceitou, muitas pessoas sem cultura e informação me disseram coisa como ' você é quase dono da loja e agora só vai tatuar? '. Mas nada disso me influenciou, o que importa é que eu me encontrei na arte da Tatuagem, sinto que é isso que eu sempre quis, me sinto satisfeito em ver o cliente feliz, nunca fui uma pessoa monetária, dinheiro não vale nada perto da paz de espírito, de uma alegria de verdade, sempre que tatuo uma pessoa pela primeira vez, após o processo eu vejo a pessoa evoluir em vários sentidos naquele momento, principalmente a autoestima. Isso tudo para mim não tem preço que pague! Na loja de motos ajuda em pequenas tarefas, quando estou tranquilo no estúdio, mas atualmente estou focado 100% na Tatuagem!           

 

Você sofreu algum tipo de preconceito na adolescência por ser tatuado tão jovem?                       

Sim, na época do colegial alguns professores falaram que meus pais não tinham juízo, que estavam incentivando uma vida com um caminho errado. Eu sou skatista, e costumava andar sem camiseta, quando policiais viam sempre me abordavam e questionavam à respeito das tatuagens, mas nunca tive maiores problemas. Hoje em dia o preconceito diminuiu bastante, mas em locais com predominância do público mais velho, eles ainda tem uma visão distorcida sobre a tatuagem, muitos tem receio e chegam a evitar qualquer contato.                       

O que pode ser feito para mudar isso?                       

Atualmente o preconceito está ficando pra trás aos poucos, acredito que a geração que viveu a época que o pensamento era 'quem tem Tatuagem é bandido' está acabando, a geração nova está chegando com um pensamento mais amplo, e estão tomando conta do mercado nacional. Conheço pessoas que  são tatuadas e ocupam cargos de extrema confiança, a população está enxergando que tatuagem não influencia no caráter. Hoje a tatuagem se tornou um comércio forte, hoje é fácil comprar uma tatuagem, mas são poucos estúdios que mantém a raiz e respeitam a arte, evitam 'copiar' tatuagens repetidas. Todos os dias recebo clientes que estão se tatuando pela primeira vez, sem nenhum medo, mas sempre os instruo sobre as regiões do corpo, para evitar preconceito e arrependimento e principalmente sobre o respeito com arte.                       

 

 

5- E como funciona a criação das artes para seus clientes? Você trata como exclusivo, ou você pega um desenho pronto que ele já traz de casa?                        

Na maioria dos casos sempre peço uma referência, pela arte que o cliente me manda eu tento imaginar o estilo de vida que ele leva, o objetivo da Tatuagem, dependendo do desenho eu sempre tento puxar pro lado do tradicional, explico para o cliente sobre o estilo e o peso histórico que eles trazem, na maioria das vezes da certo. Caso contrário uso a referência do cliente e busco ideias em todos meios que tenho acesso e crio algo exclusivo paralelo com a referência. Alguns casos de criações exclusivas, após serem tatuadas eu não costumo fotografar, não divulgo em nenhum lugar, os clientes se sentem bem confortáveis ao saberem disso. Se o cliente trouxer alguma referência de algum artista da região, ou de algum conhecido meu, e não tiver acordo com uma nova arte baseada na ideia dele por respeito eu não tatuo. Quando é uma arte de internet que eu enxergo que é de outro país, ou de artistas anônimos, eu atendo o cliente sem problema nenhum e executo a famosa tatuagem 'comercial'.           

            

6- Pensando neste modo de tatuar, você vê o meio da tattoo unido ou está "cada um por si" ?                       

Meu círculo de amizade na Tatuagem aumenta a cada dia, apesar da minha região ser do interior de São Paulo acabo ficando um pouco limitado pra demonstrar o estilo que eu gosto, que me sinto confortável em tatuar, aqui na região a maioria dos tatuadores tentam fazer o possível pra atender todos os estilos, pra não perder o cliente. As vezes alguns clientes ficam pesquisando por valores, não procuram pelo conhecimento e integridade do artista, preferem pagar barato, isso atrapalha no comércio e na parceria com os outros artistas. Mas de qualquer forma me sinto cada vez mais reconhecido e acolhido por outros artistas de níveis superiores, mesmo sem conhecer ou ao menos ter algum contato, sinto uma sintonia forte no modo de pensar e principalmente na ocasião do respeito pela arte. Infelizmente existem pessoas que se acham superiores, e acabam rebaixando e denigrindo a imagem do companheiro de profissão, alguns artistas esquecem que a vida é um aprendizado infinito, acham que sabem o suficiente para ignorar outros artistas, principalmente os que estão iniciando, com milhares de dúvidas. Eu faço o possível pra ajudar todos artistas que eu conheço, participo de grupos em redes sociais, troco informações diariamente, da mesma forma que eu aprendi todos podem aprender. Mas sinto o mundo da Tatuagem cada vez mais unido!                       

 

 

Jogo rápido:

4  tatuadores nacionais: Lincoln Emiliano, Tom Grave, Caio Pinero e Tete

4 tatuadores internacionais: Myke Chambers, Samuele Briganti, DiaoZuo e Bob Tyrrell

1 livro: Clube da Luta

Uma música:  Maluco Beleza - Raul Seixas

Tatuagem:  Tradicional Old School

Raul: Intensidade

Brasil: Tem tudo pra ser o melhor país do mundo, ainda tenho esperança!

Família: Base, desde sempre até o fim!

Uma frase:   "O que não for iniciado, nunca será concluído!"                        

 

         

 

 

Por que o tradicional e o seu estilo preferido? oque ligou você a ele com o tempo?                       

Meu pai sempre é minha maior inspiração de vida, ele tem 54 anos de idade atualmente, viveu a época dos anos 70/80, que foi uma época muito intensa pra geração dele, músicas boas, carros bons, motos boas, tudo que gerava uma inspiração de estilo de vida muito forte. Com o tempo ele me passou tudo isso, representado de outras formas, histórias infinitas, passagens que marcaram a vida dele e que foram passadas para mim, tudo foi essencial para o meu desenvolvimento na juventude. Desde a infância frequentei encontros de motociclistas, viajei com o meu pai muitos anos de triciclo e moto, conheci e vivi uma cultura totalmente criticada e temida pela sociedade. Cresci vendo pessoas muito tatuadas, diferentes em todos os sentidos, mas com ideologias iguais, o sentimento de irmandade e compaixão sempre em primeiro lugar!  Na época a predominância das tatuagens que eu via eram clássicas, os desenhos traziam sentimentos de liberdade, desejo de viver, paisagens, homenagens à família, momentos que precisavam ser eternizados na pele! Sempre relembro de pessoas ilustres que eu revia nos eventos, com tatuagens fortes, linhas grossas, cores pesadas e sólidas, isso me inspirou extremamente no que sou hoje!                       

E você busca criar sua própria identidade dentro do estilo? Como é aplicar novas tecnologias e técnicas nesse estilo?                       

Sim, em todos desenhos que eu crio e tatuo eu deposito meu estilo, meu ponto de vista, gosto de mesclar espessuras de traços, realçar cores, trabalhar com um pouco de degradê de cores, gosto do resultado final, mas aplico essas diferenças em alguns trabalhos, em outros prefiro usar a regra do estilo clássico, cores primárias bem rústico! Na visão de alguns artistas mais velhos que defendem o estilo, eles criticam quem modifica a tradição, já ouvi críticas sobre essa ocasião, mas eu acredito na evolução da arte, sempre respeitando os limites tudo é aceitável! Uma modificação sobre o estilo pode se tornar uma referência!                       

Na sua visão quais serão os próximos passos da tatuagem na sociedade?                       

Vejo que está tudo acontecendo rápido, pessoas se tatuando demais sem muito planejamento, se tatuando pela moda, por status, muitas vezes para conseguir um lugar na sociedade artificial. Tenho medo que um dia a tatuagem acabe sendo algo que não faça mais sentido, a moda acaba passando, tudo que é demais acaba enjoando. Espero que o futuro seje de pessoas com tatuagens de verdade, que o respeito pela arte prevaleça e que os artistas sejam cada vez mais unidos!                       

Quais outros estilos de tatuagem você admira e busca de especializar?                       

Atualmente estudo bastante a linha do preto e cinza, faço vários trabalhos dessa linha no meu estúdio, procuro evolução em cada um deles. O outro estilo que gosto de estudar e de tatuar é o Oriental tradicional e também estudo a linha de trabalhos de linhas finas e delicadas, tatuagens femininas. Nesses estilos busco sempre a evolução, mesmo não os tatuando, pesquiso e desenho muito!                       

Você já participou de workshops ? Como eles agregaram no seu conhecimento?                        

[10:34, 4/5/2017] Raul Tatuador: Eu ainda não participei de workshop, quando comecei tive um auxílio particular de um amigo Tatuador. Mas já estive em vários estúdios e acompanhei vários trabalhos sendo executados e troquei muita informação, que ajudou demais, fora isso acompanho muitos vídeos na internet, vídeos de passo a passo de diversos estilos de tatuagens sendo feitos, isso me ajuda demais! Pretendo participar de workshops sim, no momento eu estou focado totalmente em manter todo meu investimento no meu estúdio e na demanda do estilo que recebo diariamente.                       

 

 

 

Você usa a mesma máquina para todos os estilos de tatuagem, ou trabalha com máquinas diferentes?                       

 Não, gosto de trabalhar com uma para cada ocasião. Eu só trabalho com máquinas de bobina, não consegui me adaptar com rotativa, atualmente tenho 4 máquinas, como gosto de old school tenho uma com uma regulagem mais forte pra empurrar agulhas de traço maiores, outra com uma regulagem diferente para linhas médias e finas, uma específica para pintura e preenchimento e uma Híbrida que fica de reserva, dificilmente uso mais que 3 máquinas. Faço manutenções constantes nas minhas máquinas, gosto de alterar as regulagens para facilitar a aplicação em regiões mais complicadas do corpo.                       

De acordo com seu estilo preferido, qual a parte do corpo que você julga mais complicada para tatuar/pintar/preencher?                       

A costela na minha opinião é a pior região do corpo para tatuar, a pele é diferente, a posição é desconfortável, o cliente na maioria das vezes não consegue se concentrar em uma posição só, acaba sendo estressante e cansativo. Mas com o passar do tempo estou aprendendo a lidar com essa região do corpo, o segredo é ser paciente e compreensivo.                       

Quem quer conhecer o seu trabalho, onde pode encontrar?                       

Facebook - Forever Ink Tattoo (@foreverinktattoosg)

Instagram - @foreverink.tattoo

Contato celular whatsapp- (19) 9 9969-6326

Pessoalmente, Avenida 1 número 482 Centro. Santa Gertrudes-sp     

 

Qual a mensagem você deixa para nossos leitores, e seus clientes, e claro os amantes da tatuagem?                       

É uma honra ter a oportunidade de compartilhar o meu conhecimento que adquiri até agora com todos, agradeço de coração pelo convite, fico muito feliz em poder dividir a minha opinião com pessoas que seguem o mesmo estilo de vida que o meu. A mensagem que deixo para todos é que temos que nos sentir bem do jeito que somos e não do jeito que as pessoas querem que sejamos, ninguém tem o direito de nos impedir de nada, viva o presente como se não existisse o amanhã e nunca se arrependa do que já foi feito, sempre mantenha o respeito em todas as ocasiões, seja seu próprio Deus! Forte abraço para todos!

 

 

Cremo é Fundador do Portal Wonder Girls Tattoo e do Portal @CULTURAEMPESO. Formado em Redes para Computadores, é fotográfo e desenvolve websites. Página oficial no facebook: www.facebook.com/wondergirlstattoo Instagram: @wondergirlstattoo Perfil: fb.facebook.culturaempesobr

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